Há noites que não cabem apenas no calendário, deixam um rasto de corpo, voz e memória. No passado dia 21 de novembro no Centro Cultural Olga Cadaval, os Netos de Bandim celebraram 25 anos de existência com um espetáculo que foi mais do que um show, foi um regresso à própria terra, mesmo estando longe dela.

O palco abriu-se como um quintal de casa, daqueles onde a música nasce antes das palavras. Os tambores, os primeiros a falar, marcaram o compasso de uma história iniciada em Bissau e projetada pelo mundo. Em seguida vieram as vozes, ora firmes, ora doces que atravessaram o auditório como se procurassem cada pessoa pelo nome. Não havia apenas público, havia testemunhas.

Ao longo da noite, o grupo costurou o passado e o futuro com a delicadeza de quem conhece o peso simbólico da sua própria caminhada. As coreografias, vivas e ancestrais, pareciam carregar os ecos do Bairro de Bandim, as ruas de areia, os jogos de infância, os rituais comunitários. Cada movimento era uma lembrança que se recusava a ser esquecida.
A celebração dos 25 anos revelou também um Netos de Bandim renovado, com uma presença madura, consciente da importância cultural que ocupam nas rotas artísticas da diáspora guineense. Houve homenagens, cumplicidades e um orgulho que não se pediu, simplesmente reconheceu-se.

Quando o último canto se apagou, o público manteve-se de pé, como se ainda tentasse guardar no corpo a vibração daquele encontro. Era visível que ninguém queria ir embora, porque havia algo de raro naquela noite, sentir a Guiné-Bissau pulsar em Sintra, inteira, luminosa, indestrutível.
Os Netos de Bandim mostraram que 25 anos não é apenas um número, é um legado vivo. E, no Olga Cadaval, fizeram do palco um território de pertença, memória e celebração. Uma noite que ficará guardada como uma promessa de que a cultura, quando é verdadeira, não envelhece, expande-se.
A Equipa da CCGB
"Arus Femia", de Zia Soares, estreia no Porto e segue para Lisboa e Bissau
O espetáculo "Arus Femia", da encenadora e atriz Zia Soares, estreia no dia 21 de março no Teatro Campo Alegre, no Porto (https://www.teatromunicipaldoporto.pt/pt/bilheteira/tabela-de-precos/). Inspirada na resiliência das mulheres guineenses durante a escravatura, a peça reflete sobre resistência, memória e a procura por um caminho perante a adversidade. O título "Arus Femia", que significa "arroz fêmea" na língua guineense, faz referência a uma história ancestral de mulheres que esconderam sementes de arroz nos cabelos para garantir a sobrevivência num destino incerto.

A criação do espetáculo surgiu após Zia Soares ouvir essa narrativa de um amigo guineense, levando-a a visitar campos de arroz na Guiné-Bissau. Durante as suas pesquisas, a encenadora percebeu como as mudanças climáticas ameaçam a tradição agrícola e o futuro do país. O arroz, alimento essencial na Guiné-Bissau, é cultivado de forma única em bolanhas de água salgada, um equilíbrio que está a ser comprometido pela subida do nível do mar e variações climáticas extremas.
A peça apresenta uma comunidade que resiste e prospera apesar das crises ambientais e sociais. As personagens assumem características que transcendem o humano, tornando-se parte da natureza para sobreviver.
"Arus Femia" é um espetáculo multidisciplinar, que combina teatro, dança, vídeo, música e canto. Com um elenco formado por artistas de Portugal e da Guiné-Bissau, a peça conta com a música de Xullaji, que também atua no espetáculo, ao lado de Albertinho Monteiro, Aoaní, Dionezia Cá, Izária Sá, Ulé Baldé e Urbício Vieira. A coprodução é dos Netos de Bandim e do Teatro Municipal do Porto.

Além das apresentações nos dias 21 e 22 de março no Porto, haverá uma conferência no Rivoli - Teatro Municipal do Porto, intitulada "Arroz Africano no Mundo Atlântico", no dia 22. O evento contará com a presença de Judith Carney, especialista em história ambiental e agricultura africana, e José Felipe Fonseca, engenheiro agrónomo da Guiné-Bissau. A conversa será moderada por Erikson Mendonça, Gestor de Projetos da ONG Tiniguena.
O espetáculo segue depois para Lisboa, onde será apresentado no Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian , no dia 2 de abril (https://gulbenkian.pt/cam/agenda/arus-femia-de-zia-soares/). De 7 a 11 de maio, estará em cartaz no Teatro do Bairro (https://www.teatrodobairro.org/). No dia 31 de maio, "Arus Femia" será apresentado em Bissau, na primeira Bienal de Arte e Cultura da Guiné-Bissau (https://bienalmoacbiss.org/), marcando um momento significativo de retorno da peça às suas raízes.
Com este espetáculo, Zia Soares convida o público a refletir sobre a resiliência e a capacidade humana de encontrar caminhos mesmo perante as maiores adversidades.
Fotos: Arlindo Camacho
A Equipa da CCGB